Irashaimasse... Este espaço é "irmão" da comunidade Movimento Dekassegui no Japão. Chamei-a assim porque há muitos dekasseguis (pessoas que saem de sua terra natal para trabalhar temporariamente em outro lugar) e eu faço parte desta comunidade de filhos e netos de japoneses que migraram para o Brasil. Domo arigato gozaimasu. zanguio.com.br

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Jardins Japoneses: Nihonteien



Convivência dos japoneses com a natureza possui tanto tempo quanto a própria civilização

(Fotos: Divulgação)

Os tradicionais jardins japoneses constituem um dos pontos representativos da cultura nipônica, sendo reconhecidos por sua beleza e complexidade singulares em qualquer parte do mundo.

Os jardins japoneses, como os conhecemos hoje, construídos a partir de diversos conceitos estéticos e religiosos, tiveram sua origem a partir do período auge da aristocracia japonesa, a Era Heian (794~1185). Mas, na verdade, a convivência dos japoneses com o manuseio da natureza possui tanto tempo quanto a própria civilização. Desde a pré-história do arquipélago (Era Yayoi, 300a.C.~300d.C.), quando o homem primitivo tomou consciência da agricultura, fixando-se em pequenas vilas, a disposição da paisagem natural passou a influenciá- lo e por ele ser influenciada. Como resultado desse processo, os jardins expressam a relação do homem com a natureza, a qual foi sendo concebida e aprofundada, com o passar do tempo, por meio de conceitos espirituais, estéticos e intelectuais.

A jardinagem concentra concepções religiosas

Para que se entenda o real significado desse tipo de jardim, é necessário que se compreenda a peculiar relação dos japoneses com os elementos da natureza, uma vez que, para eles, além de ser a origem da vida e da terra onde vivem, a natureza também compreende a morada das divindades (kami). Segundo a crença religiosa japonesa, o Xintoísmo (Shinto) define a origem do Japão e de seu povo por meio de divindades que controlam a vida e as forças naturais (a história da formação do Japão e de seu povo foi concebida a partir da compilação de mitos antigos denominada Kojiki, ou Relatos de Fatos do Passado). Dessa forma, localidades exóticas como cachoeiras, árvores anciãs ou grandes rochas, representações muito freqüentes na arte da jardinagem, podem ser consideradas sagradas, por simbolizarem a morada das divindades naturais.

Ideogramas e Significados


niwa

sono

Teien

As palavras que, na língua japonesa, costumam ser mais usadas para denominar “jardim” são niwa e sono, ambas registradas pela primeira vez em literatura na primeira compilação poética japonesa, do início do século VIII, chamada Man’yôshû. O primeiro ideograma denomina um território não controlado pelo homem, de característica mais natural, e o segundo um território cercado, uma natureza de característica mais controlada. O interessante é que ambos os ideogramas podem ser usados juntos, tomando a pronúncia chinesa Teien, que siginifica não apenas a palavra “jardim”, mas também expressa um conceito básico da arte da jardinagem: o equilíbrio entre a beleza natural e aquela construída pelo homem.

A jardinagem, como uma arte propriamente dita, foi introduzida ao Japão pela China e Coréia, nas Eras Asuka (552~710) e Nara (710~794), períodos marcados pela grande importação de conceitos religiosos e culturais. Essa importação ocorreu por meio da vinda ao Japão de alguns especialistas nessa arte, como o imigrante coreano Michiko Takumi, citado na compilação histórica Nihon Shoki (Crônicas do Japão, datada do início do século VIII), como um artista que construiu um jardim no Japão no século VII, chamando a atenção do povo japonês para a beleza dessa arte.

A jardinagem que concentra concepções religiosas e intelectuais passou a se desenvolver a partir desses períodos, tomando diferentes significados e formatos. Na edição 411, veremos uma pequena descrição histórica dos principais tipos de jardins, seus conceitos de construção e significados.




Esse tipo de atividade possui mais de mil anos de desenvolvimento

Convivência dos japoneses com a natureza possui tanto tempo quanto a própria civilização

(Foto: Divulgação)

A arte de se criar jardins, introduzida ao Japão por volta dos séculos VI ou VII, por meio de imigrantes chineses e coreanos, tomou forma e conceitualizações mais definidas durante os tempos áureos dos palácios da aristocracia da Era Heian (794~1185). Seus jardins eram construídos na parte sul da propriedade (nantei) e a sua principal característica era o grande espaço aberto, normalmente coberto com areia branca, parte pela limpeza estética proporcionada por esta, e parte para facilitar uma grande variedade de eventos realizados pelos aristocratas, como recitais de poesia e torneios de arco e flecha. Contudo, o que mais chama atenção neste tipo de jardim é a presença de uma grande lagoa com uma ilha no centro. Esta ilha era ligada às extremidades por pontes. De fato, como é possível se ver na literatura, naquela época, uma das palavras para a denominação “jardim” era shima (ilha). E como essas lagoas também eram utilizadas para passeios em pequenas embarcações, esse tipo de jardim é conhecido atualmente como Chisen Shûyû Teien, ou Jardim de passeio na lagoa.

Histórias e fábulas

Mais tarde, o idealismo da Era Heian tornou-se realidade. Durante as Eras feudais de Kamakura (1185~1333) e Muromachi (1333~1568), os jardins mais construídos no Japão eram aqueles provenientes dos conceitos do Zen-Budismo. Estes são chamados de kare-san-sui (literalmente, seco-montanha-água), nome que alude à composição deste jardim, que cria um cenário metafórico de montanhas e águas (rios ou mares), sem que nenhuma água real seja utilizada. A areia do chão é varrida, representando o fluir das águas, e as pedras dispostas de forma que remetam a montanhas. Esse tipo de jardim, normalmente possui uma extensão pequena, não sendo próprio para que se passeie por ele, mas sim para que seja explorado mentalmente. Muitas fábulas Budistas podem ser transmitidas pela disposição de seus componentes e sua confecção e manutenção é, geralmente, tida como um exercício de meditação para os monges Zen, os quais consideram manter o jardim limpo e organizado um meio de manter a alma pura e concentrada.

Durante o fim da Era Muromachi e toda a Era Azuchi Momoyama (1569~1600), a construção de outro tipo de jardim se tornou comum: o jardim voltado para a cerimônia do chá. Com o desenvolvimento desta prática e sua constante realização pelos guerreiros e aristocratas, um tipo de jardim que configurasse apropriadamente as casas de chá se tornou necessário. Dessa forma, o jardim do chá, ou roji (caminho), é famoso por ser encontrado na entrada das casas de chá. Suas principais características são as pedras no chão, que demarcam o caminho da rua à casa (tobi-ishi), e as luminárias de pedra (ishidôrô), ambos elementos típicos da jardinagem japonesa. Esse tipo de jardim tinha como objetivo preparar psicologicamente seu visitante para a prática do chá, pois é um caminho que o acalma e o concentra até a entrada no estabelecimento.

Cultura e beleza

Durante a Era Edo (1603~1867), houve uma grande urbanização do país e algumas pessoas melhores colocadas socialmente passaram a viver em cidades (chônin). Por isso, a construção de amplos jardins foi se tornando impossível, e a arte da jardinagem acabou sendo levada para dentro de casa. Os chamados jardins tsubo (uma medida de espaço de 3,3 metros), pois concentravam toda a beleza e a conceitualização dos grandes jardins num espaço restrito, dentro de um cômodo aberto, são resultado desses fatores. Sua principal característica é a concentração de diversos elementos de tipos anteriores de jardins, para a apreciação visual e a ponderação mental por parte de seus apreciadores, sejam eles os donos do jardim, seus convidados ou clientes. Além disso, ostentam cultura e beleza.

Embora tenhamos nos restringido apenas a esses tipos de jardins, há diversos outros jardins japoneses, pois esse tipo de atividade possui mais de mil anos de desenvolvimento e sua beleza e complexidade são amplamente estudadas e apreciadas por curiosos de todo o mundo..


Colaboradoras: Pedro Ferreira Perrenoud Marques
Revisão: Profa. Dra. Junko Ota
Coordenação: Koichi Mori.
Crédito: Bolsistas de Toyama 2005/2006, curso de Língua e Literatura Japonesa (FFLCH/USP).
Tel.:
(11) 3091-2426 (secretaria), 3091-2423 (biblioteca)
Assessoria técnica: Patrícia Izumi. Centro de Estudos Japoneses/USP.
Site: www.fflch.usp.br/dlo/cejap

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